No dia de 7 de maio, o Sidarta promoveu um encontro virtual com a comunidade de famílias do colégio para debater um tema cada vez mais presente nas conversas sobre educação e desenvolvimento infantil: o déficit cognitivo. O evento foi realizado graças a uma parceria do Instituto Sidarta com o Future Hacker, think tank de inovação e disseminação de conhecimento.

Conduzido por Don Louro, matemático e cientista da computação cognitiva, o bate-papo ofereceu um mergulho profundo — e acessível — nas causas, impactos e possibilidades de enfrentamento desse desafio, que afeta crianças e jovens em um cenário de transformação digital acelerada.
Déficit cognitivo, sequestro e exaustão sináptica
Don Louro destacou que o cérebro das crianças está em constante construção e que a plasticidade sináptica — a capacidade de o cérebro reorganizar suas conexões — depende do uso contínuo da atenção, da emoção e da memória. No entanto, o excesso de estímulos digitais tem provocado um fenômeno preocupante: a exaustão sináptica, que compromete a aprendizagem ao enfraquecer as conexões cerebrais. O professor lembrou que, sem atenção contínua, emoção verdadeira e tempo para consolidar as informações, o aprendizado simplesmente não se fixa. Nesse contexto, o déficit cognitivo não é apenas uma questão clínica, mas social e educacional.
Don também chamou a atenção para a convergência entre os mundos físico, digital e biológico, uma transformação acelerada pela internet das coisas (IoT) e pela inteligência artificial. Hoje, softwares substituem funções antes exercidas por nós mesmos — como o uso da memória espacial, delegada a aplicativos de navegação. Esse “sequestro sináptico” exige que famílias e escolas reflitam sobre como equilibrar a tecnologia no cotidiano, de modo a preservar e estimular habilidades cognitivas essenciais.
O papel das emoções no combate ao déficit cognitivo
O pesquisador também delineou a diferença entre emoções reais e digitais. Emoções vividas no contato presencial, como o afeto em uma conversa olho no olho, criam memórias duradouras. Já as emoções geradas por interações online, muitas vezes mais superficiais, não produzem o mesmo efeito. Don reforçou que não basta desenvolver as chamadas habilidades duras (hard skills). O desenvolvimento emocional tem papel central na aprendizagem. A capacidade de regular emoções, lidar com a impulsividade e enfrentar frustrações impacta diretamente a consolidação do conhecimento.
Ele também destacou o papel da atenção, que está cada vez mais fragmentada pela multitarefa digital, um desafio para o desenvolvimento cognitivo das crianças imersas em ambientes tecnológicos. Neste contexto, Louro também diferenciou o que significa entender e compreender. Entender algo, disse Don, é reconhecer uma informação; compreender, por sua vez, exige conexão emocional e tempo de consolidação — que hoje são escassos nas rotinas multitarefa e hiperconectadas. Essa desconexão impacta diretamente a aprendizagem. Don fez uma analogia simples: tentar ensinar com uma mente distraída é como escrever com giz em uma lousa molhada — nada fixa.
Ao se aproximar do final de sua fala, Donf afirmou que o desafio não é “desligar as telas”, mas sim reconectar as crianças com experiências que promovam atenção, presença e vínculo afetivo, com apoio das escolas e famílias em parceria. Nesse processo, torna-se igualmente essencial que não só crianças e jovens, mas também famílias e educadores busquem o próprio letramento digital, fortalecendo competências para orientar e acompanhar as novas gerações nessa jornada com segurança e confiança.
Louro concluiu a palestra ressaltando que a educação contemporânea precisa integrar o conhecimento acadêmico com inteligência emocional e compreensão crítica da tecnologia — formando crianças e jovens capazes de agir com consciência, equilíbrio e criatividade em um mundo em constante mudança.
Confira perguntas feitas durante o encontro sobre déficit cognitivo
Durante o webinar, os participantes trouxeram questões instigantes. Abaixo, algumas das perguntas feitas durante o evento e as respostas de Don:
Gustavo, estudante do Ensino Médio: Com o avanço da inteligência artificial, a profissão de engenheiro de software vai desaparecer?
Don Louro: “De forma alguma. A IA depende da engenharia humana para existir. Ainda há um déficit enorme de profissionais na área. Mas não basta programar: é preciso dominar lógica, matemática e abstração. A profissão está viva e em expansão.”
Gabriela, mãe Sidarta: Existem ferramentas para monitorar a exaustão sináptica e ajudar os professores a identificarem esses sinais nos alunos?
Don Louro: Sim, mas o principal ainda é a metodologia, não a ferramenta. Precisamos investir em estrutura de dados convergentes e ambientes de ensino com automação inteligente. Há solução, mas exige investimento coletivo e formação continuada.
Bruna, mãe Sidarta: Como equilibrar o uso de tecnologia com o desenvolvimento da capacidade analítica das crianças?
Don Louro: O segredo está no envolvimento dos pais. Em vez de apenas impor limites, mergulhem no universo dos filhos. Entendam o game que eles jogam, compartilhem o interesse, e a partir daí, estabeleçam regras juntos. A tecnologia não é vilã — o problema está no uso desmedido e desconectado da realidade familiar.
Veja 5 dicas para lidar com o déficit cognitivo em casa e na escola
- Valorize a emoção como porta de entrada do aprendizado
Emoções autênticas criam memórias duradouras. Promova experiências reais, sensíveis e significativas com seus filhos e alunos. - Evite a multitarefa e promova momentos de foco
A aprendizagem exige presença e repetição. Diminua os estímulos paralelos e crie espaços de atenção plena. - Respeite o tempo do silêncio e do sono
A consolidação da memória ocorre, em grande parte, fora do tempo de estudo ativo — e depende do descanso. - Entre no universo digital das crianças com empatia
Conheça os jogos, redes e interesses digitais dos seus filhos. Use esses contextos para construir vínculos e estabelecer acordos. - Aposte na formação contínua e no diálogo entre escola e família
Nenhuma solução será eficaz se pensada isoladamente. A aprendizagem é coletiva — e o Colégio Sidarta acredita profundamente nisso.