“Educação para a vida, para o serviço à sociedade e para o despertar da sabedoria, que é reconhecer a unidade na diversidade”, princípios filosóficos do Instituto Sidarta.
Todas as pessoas no mundo nascem com um potencial único de contribuição com a sociedade. Ao longo de nossas vidas, descobrimos novas habilidades, as quais desenvolvemos e fortalecemos nessa jornada de evolução contínua. Apoiar esse processo de aprendizagem contínua é a essência do ato de educar ou educere, que significa trazer para fora, guiar, conduzir.
Como reflexo dessa ideia, o processo educativo deve estar centrado no fortalecimento dos indivíduos e no desenvolvimento da compreensão de si, de suas relações com o meio ambiente, com o entorno, com o mundo e das dinâmicas das interações humanas.
No século XXI, em virtude da potencialização das conexões trazidas pelo desenvolvimento tecnológico digital, esperava-se também a evolução da educação. Infelizmente, o que vivemos na Educação é resultado da desconexão de interesses e expectativas. A realidade reduziu o conceito para um conjunto de disciplinas com infinitas listas de conteúdos estanques, e muitas vezes, sem significado para o aprendiz.
A sociedade se satisfaz com o conceito de escola preparatória para a universidade, em que os alunos são vistos frequentemente como tábulas rasas ou copos vazios a serem preenchidos por um conhecimento pasteurizado. Esses mesmos estudantes são vistos por meio de uma lente binária que identifica se sabem ou não fazer provas.
Nesse paradigma, aqueles que respondem a essas expectativas são percebidos como sendo “ótimos alunos” e com “um futuro promissor”. Aqueles que não alcançam o resultado esperado são frequentemente rotulados como alunos “com dificuldades” e passarão o resto de suas trajetórias escolar e, por conseguinte, de suas vidas, acreditando serem menos capazes na comparação com os outros desempenhos.
Seria mesmo este o modelo de escola que queremos para os nossos alunos? John Dewey (2008), em seu livro “Educação e Democracia”, publicado há mais de 100 anos, já alertava para os riscos de uma educação pouco emancipadora, que produz pessoas propensas a seguir ordens, mas pouco criativas e protagonistas.
Frente aos desafios deste tempo, e com o crescente impacto das tecnologias digitais – como a inteligência artificial e as redes sociais, é preciso, mais do que nunca, repactuar o propósito da Educação contemporânea e recuperar a essência do ato de educar.
Assim, proponho cinco dimensões para que o processo de aprendizagem seja mais significativo e relevante para os dias de hoje.
São elas: (1) O despertar da genialidade, (2) As diversas linguagens disciplinares, (3) A perfeição de um mundo imperfeito, (4) Convivência harmoniosa entre povos e (5) O equilíbrio com o ambiente ao redor.
O despertar da genialidade
Todo ser humano nasce com uma genialidade inerente. Se ela se manifesta ou não, depende do quanto estamos dispostos a nos dedicar para fazê-la aflorar. Pesquisas científicas desenvolvidas por Jason Moser (2011) junto com uma equipe de cientistas, com base nas ideias de Mindset de Carol Dweck (2017), comprovaram que existe mais atividade cerebral nas pessoas com uma mentalidade de crescimento, do que aqueles com mentalidade fixa.
Outros pesquisadores, como Norman Doidge (2007), apresentam evidências científicas do quanto o cérebro é capaz de se adaptar às situações das mais adversas. Além disso, existem inúmeros relatos de pessoas que descobriram sua genialidade após muito trabalho e esforço. Se esforçar para despertar a genialidade parece um contrassenso, não? Se o cérebro é tão potente, por que a necessidade de investirmos tanto para realizar essa genialidade?
Ao longo de nossas vidas, sempre fomos levados a acreditar que os genes com que nós nascemos determinam o ponto máximo até o qual conseguimos nos desenvolver. Desde teorias de QI e testes de aptidão, tentamos reduzir o cérebro humano a algo simples de interpretar e compreender. Sob uma ótica binária, a ciência, nas últimas décadas, tentou, por diversas vezes, provar o oposto do que pesquisas mais recentes da neurociência concluíram: não é possível colocar limites para o que o cérebro humano é capaz de fazer.
Pesquisas atuais sobre a inteligência humana desmistificam essa noção de capacidade predeterminada. A ideia de que seremos eternamente cerceados pelo teto estabelecido desde o momento que nascemos está cada vez menos popular, dando espaço a outras formas de enxergar o potencial humano. Fato é que somos frequentemente surpreendidos pelo poder de superação e de criação do ser humano. Portanto, que direito temos de pré-julgar o destino final de uma criança logo no início de sua jornada de vida?
Prefiro pensar que cada uma tem sua genialidade inerente, diamantes brutos lapidados pela experiência do aprendizado. Sendo assim, o nosso papel de quem educa é apoiar cada pequeno Ser a encontrar aquilo que ele tem para contribuir com o mundo e, assim, despertar essa genialidade.
As diversas linguagens disciplinares
Ao contrário do que ensinamos aos jovens, o mundo não nasceu segmentado em diferentes disciplinas. Se olharmos para a natureza do mundo ao nosso redor, ela estará toda interconectada, de infinitas maneiras.
Por um instante, olhemos o simples ato cotidiano brasileiro de cozinhar e comer arroz, feijão, bife e salada. O fato de ser um prato básico do dia a dia vem de um contexto centenário, histórico e cultural, regido por influências biológicas e geográficas. Os ingredientes são medidos e preparados para alimentar um determinado número de pessoas e, ao serem cozidos, passam por processos químicos e físicos com o auxílio aparelhos tecnológicos dos mais simples aos mais sofisticados para só então produzir aquele tão desejado sabor.
Logo na primeira garfada, inicia-se um novo ciclo biológico e químico dentro do corpo humano, que se funde, em seguida, com mais outros tantos ciclos.
Para entender tudo que acontece nesse simples ato de se alimentar, em que diferentes conceitos e ideias se misturam, pode parecer bastante complexo. Mas, se utilizarmos a lente das diversas óticas disciplinares, conseguimos decodificá-lo por meio de perspectivas específicas e multidimensionais. Por exemplo, ao colocarmos as lentes das ciências, ajustamos o olhar para as evidências de aprendizados: da matemática, apuramos nosso senso lógico em busca de padrões; das artes, descobrimos o prazer da estética, do belo e da essência criativa do ser humano; e, com linguagem, temos a possibilidade de deixar um legado cultural ao longo de gerações e que se expande pelas as fronteiras intercontinentais. Ou seja, no caso do arroz com feijão, a ótica disciplinar nos apoia na resolução de problemas desde o aumento de produtividade, eficiência para alimentar mais pessoas, a criação de novos sabores e apurar o olhar cultural da gastronomia.
A lógica disciplinar possibilitou importantes avanços da humanidade, pois ela estabelece um arcabouço com princípios, critérios, e códigos pré-acordados, ou seja, uma lente específica por meio da qual podemos desfrutar da inteligência coletiva para aprofundar e interpretar determinados eventos. Mas, neste momento, na contramão dos avanços em muitas escolas, o processo de organização disciplinar reduziu o conhecimento para listas de conteúdos desconexas e descontextualizadas.
Por isso, é preciso revisitar nossas escolhas e ensinar não só os fatos relacionados à disciplina, mas também, seus fundamentos no âmbito metacognitivo. Só assim eles serão capazes de gerar novos conhecimentos na disciplina e até criar novos campos de estudo, sem perder de vista a interconectividade desses saberes.
A perfeição de um mundo imperfeito
Em nosso planeta, tudo está em constante evolução. Mesmo aquilo que consideramos inerte está sujeito a processos de transmutação, pois há influência de fenômenos maiores, como a rotação da terra, a influência do sol, da lua e do universo. Assim como um jogo de capoeira, tudo se movimenta numa dança sincronizada de encontros e desencontros, equilíbrio e desequilíbrio. Estados aparentemente permanentes de verdades dadas e certas se alteram quando menos esperamos. Mas, se nada é permanente, então qual é o padrão do “certo” que tantos buscam?
A ideia de que existe um único “certo”, uma verdade absoluta e irrefutável não passa de uma crença equivocada. A “verdade,” conceito construído pelas nossas mentes racionais, pode ser apenas realidade temporária e, às vezes, até relativa. Por exemplo, existem livros que narram a história do Brasil a partir do ponto de vista do “descobrimento”.
E por muitas décadas, essa versão foi aceita como a única verdade. Mas, a quem pertence essa verdade se os indígenas já habitavam essas terras no momento da chegada dos portugueses? Aliás, de acordo com os arqueólogos existem registros da presença de vida humana em solo brasileiro há mais de 20 mil anos. E assim, a verdade, com a chegada de novas informações, é ressignificada. A cada nova descoberta, surge também a possibilidade de uma nova leitura ou releitura da realidade.
Qual o impacto disto na educação? A começar, romper o paradigma das verdades imutáveis e instrumentalizar os educandos para lidar com a imprevisibilidade da vida. Ensinar também que, seguir o procedimento correto não é garantia do resultado certo, pois em situações reais muitas vezes não temos controle de todas as variáveis. O melhor que podemos fazer para lidar com as surpresas da vida, é aprimorar nossa flexibilidade no pensar e no agir para que saibamos buscar a melhor solução para cada desafio. À medida que os educandos se deparam com desafios dos mais simples aos mais complexos e assumem as consequências de suas escolhas, eles desenvolvem tanto a musculatura quanto a confiança de que serão capazes de superar qualquer situação nesta vida perfeitamente… Imperfeita.
Convivência harmoniosa entre povos
A natureza do ser humano é viver em sociedade. Nascemos dentro de um núcleo familiar e, ao longo de nossas vidas, aprendemos a conviver uns com os outros, em comunidade. Com o crescimento da população a cada dia e o avanço das tecnologias, inevitavelmente desbravamos novos territórios físicos e virtuais, ora virgens, ora povoados por essa aldeia global.
Como lidar com essa imensidão de culturas e perspectivas diversas? Faz parte do nosso cotidiano lidar com pessoas com idades, crenças, pensamentos e culturas diferentes nas nossas vidas. Não há dúvidas de que as pessoas pensam e agem de múltiplas formas. E também não cabe a nós julgarmos qual é melhor ou pior. São maneiras de ser; mais precisamente, bilhões de jeitos de ser.
O espaço da educação deve permitir o exercício diário dos alunos com aqueles que são similares e diferentes de si, especialmente para o desenvolvimento da empatia. Na sociedade digital, muitas vezes as interações humanas, restritas a um pequeno quadrado na tela, limitam a possibilidade do aprimoramento de nossa capacidade de comunicação que contemple a linguagem verbal e não verbal.
Aprender a conviver em sociedade requer mais do que postagens de vídeos, curtidas e emojis. O desenvolvimento de relações humanas saudáveis pressupõe viver momentos de altos e baixos, enfrentar situações de conflitos das mais diversas. Estabelecer diálogo com aquele que discorda de nossa opinião, nos faz crescer e ampliar nossas perspectivas sobre a vida além de desenvolver a nossa musculatura para lidar e superar situações de adversidade. Mas na sociedade contemporânea, oportunidades de aprendizagem como essas estão se tornando mais escassas.
Quando nos deparamos com opiniões divergentes, nos preocupamos mais em manifestar nossas verdades do que em buscar um lugar de entendimento. Como resultado, nossa sociedade está adoecendo, com índices de transtornos mentais aumentado de forma alarmante, e a resiliência para lidar com frustrações cada vez mais baixas. Precisamos resgatar nossa humanidade urgentemente, buscar esse reencontro em carne e osso, e convivermos mais no tempo presente uns com os outros.
Se nós, cidadãos desta aldeia global, desejamos viver numa sociedade mais harmônica e menos violenta, precisamos nos reconectarmos com aquilo que nos torna humano, reconhecer a interdependência de todos os seres, e abrir espaços para diálogos e para a escuta genuína de forma mais generosa e empática. Ao fim, sabemos que todos temos algo em comum: o desejo de ser feliz.
Equilíbrio com o ambiente ao redor
O que é sucesso? Dentro do paradigma atual, sucesso é crescer incessantemente, na qual a ordem do dia é subir sempre, tendo pouco espaço para paradas para reflexão, ou mesmo para retrocessos no âmbito pessoal e coletivo. Muitos levam as vidas acreditando que sucesso é crescer profissionalmente, aumentar nossos ganhos financeiros e, com isso, aumentar a felicidade. A equação parece ser simples: quanto mais riqueza material, maior realização. Nossa sociedade criou formas de medir sucesso, desde rendimentos individuais ao tão almejado status de país desenvolvido avaliado pelo nosso PIB (Produto Interno Bruto).
Mas, essa corrida por obter cada vez mais bens materiais, não é sustentável. Sob a perspectiva do Professor Otto Scharmer (2018), da Massachusetts Institute of Technology, os paradigmas atuais da sociedade estão gerando uma série de sintomas considerados patologias. Por exemplo, alguns sintomas estão refletidos no fato de que a população mundial utiliza 50% a mais dos recursos que o planeta é capaz de regenerar sendo que 30% da população mundial vive na miséria, com menos de US$2 por dia. Ou seja, se 70% da população já consome 150% dos recursos existentes, o que será do planeta quando conseguirmos elevar as condições de vida igualmente para todos, inclusive dos 2,5 bilhões, hoje excluídos?
Se quisermos ter condições de perpetuar a humanidade e desfrutar de uma qualidade de vida para hoje e também para o amanhã, é imprescindível fazer novas escolhas sob novas perspectivas e novos paradigmas para que possamos reduzir a nossa pegada ecológica, alterar nossos hábitos de consumos, e criar alternativas que garantam qualidade de vida utilizando menos recursos.
*De autoria de Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, esse artigo faz parte da 1ª edição da publicação do Educar para Além do Óbvio, programa que tem como objetivo materializar a forma como educadores são capazes de reaprender a ser pesquisadores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DEWEY, J. Democracia e Educação: Introdução à filosofia da educação. São Paulo: Ática, 2008.
MOSER, J. et al. Mind Your Errors: Evidence for a Neural Mechanism Linking Growth Mind-Set to Adaptive Posterror Adjustments, 2011.
DWECK, C. Mindset: A nova psicologia do sucesso. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2017.
DOIDGE, N. The Brain that changes itself. Penguin Life, 2007.
SCHARMER, O. Liderar a partir do futuro que emerge: a evolução do sistema econômico ego-cêntrico para o eco-cêntrico. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2018.