
Materializar a forma como professores são capazes de ser pesquisadores. Esse é um dos focos do programa Educar para além do óbvio, iniciativa do Instituto Sidarta que, desde 2022, incentiva educadores a se desenvolverem enquanto pesquisadores por meio da pesquisa-ação.
A partir de uma pergunta genuína sobre a sua própria prática docente e sobre a aprendizagem dos seus alunos, o professor-pesquisador elabora um plano de ação e coleta evidências para realizar uma reflexão mais profunda.
Confira abaixo a entrevista feita com a coordenadora da frente de Ciência das Linguagens do Instituto Sidarta, Camila Castilho, e saiba mais sobre o programa.
Qual é a principal missão do programa Educar para além do óbvio?
O programa tem quatro pilares. O primeiro é ressignificar o papel do professor na perspectiva de ser menos transmissor e mais reflexivo sobre suas propostas didáticas de ensino.
Outro é incentivar esses professores a começar a relacionar mais a teoria, principalmente acadêmica, com a sua prática e com seus conhecimentos da prática.
O terceiro pilar é contribuir para a maior e melhor coleta de dados e evidências. Isso é muito importante porque tem a ver com o registro do professor. Mas, muitas vezes, essa análise do que eles coletam não é feita.
O quarto e último pilar é preparar melhor os professores para um processo de compartilhamento de práticas. A gente percebeu que esse compartilhamento é raro. São alguns encontros docentes nos quais os professores trocam, mas muitas vezes não valorizam suas práticas.
E isso é muito importante porque um dos pilares de atuação do Instituto Sidarta é tornar esse professor protagonista do seu processo, da sua prática, e fomentar um espaço formativo em que ele consegue construir, discutir, trocar, ressignificar o que faz e passar adiante.
Como surgiu a ideia de criar o programa?
Em 2022, o Instituto vinha num processo bem auspicioso, de muita formação. Nós tínhamos um cargo chamado “professor-pesquisador”. A gente queria que esses professores olhassem para a sala de aula como um laboratório mesmo, e ver o que eles poderiam ampliar, melhorar, modificar nos dados que coletavam, seja fosse de uma prova, de uma sondagem ou de alguma questão muito específica com os alunos. A gente queria que eles relatassem, que eles conseguissem entender aquilo, que eles relacionassem prática com teoria para, assim, promover uma reflexão que seria a práxis desse trabalho docente.
O programa tem também muito do trabalho que é feito até hoje com as professoras pedagogas do ciclo 1 do Colégio Sidarta, que são constantemente convidadas a fazer avaliações contínuas, a refletirem sobre suas práticas. Era uma forma de oficializar e valorizar esse processo que há cinco anos a gente faz com essas professoras.
Que tipos de investigações podem ser desenvolvidas no programa?
Muitos tipos de pesquisas, mas a gente sempre parte da pergunta “E se a sua sala de aula fosse um laboratório?”, entendendo que a sala de aula é um dos muitos laboratórios onde vivemos, atuamos, estamos. Então, o que você observou neste espaço que gerou um questionamento genuíno?
Em 2022, por exemplo, tivemos o tema “Qual é a função do uso da borracha nas aulas de matemática?”, que estava relacionado com uma formação do Instituto sobre a abordagem Mentalidades Matemáticas. Qual é o impacto do uso dessa borracha que apaga o pensamento matemático antes mesmo do aluno conseguir compartilhar com o colega porque ele acha que está errado? Uma reflexão que tem a ver com o princípio de Mentalidades Matemáticas que fala sobre a valorização do erro.
Em 2023, tivemos “Como trabalhar no vestibular sem falar de vestibular?” e também “Qual é a contribuição da modelação da escrita da professora para a produção escrita individual do aluno?”, que foi um dos temas mais procurados. Alguns desses questionamentos genuínos partiram da prática, de dúvidas que as próprias professoras já tinham. Outros surgiram de discussões junto com a coordenação. Também emergiram temas da observação de sala de aula, da aplicação de uma sondagem, de uma avaliação. São diferentes tipos, mas sempre focando na atuação do professor com o aluno e nessa melhoria da relação de ensino e de aprendizagem em sala de aula.
Como é o passo a passo de execução de um projeto no programa Educar para Além do Óbvio?
Nós estamos nos aproximando do Encontro, que é uma das partes mais importantes do Educar. Entretanto, ela não é a única. O programa sempre começa com a inscrição de uma proposta, de uma pergunta. De onde o educador tirou essa pergunta? Com base em quais evidências ou quais questionamentos ele traz essa pergunta? Qual é a relevância social, no sentido amplo e no sentido local, do próprio Sidarta, dessa pesquisa? Como que ele pensa em executar as ações, ou mesmo fazer a coleta de dados?
Em seguida, a gente parte para uma rodada de devolutivas com avaliação sobre essa proposta. Muitas vezes, é preciso fazer um recorte, diminuir o grau de amplitude para que a gente consiga dados mais concretos, mais fáceis de analisar e de compartilhar.
Depois dessa fase de ajuste da proposta, vem a primeira roda de conversas, quando os educadores são agrupados para discussão em mesas temáticas ou mesas disciplinares. Depois dessas conversas, acontece uma apresentação inicial guiada pela pergunta “Até que ponto eu fui no meu plano de ação?”, que é um preparo para o Encontro.
Já o Encontro é o momento para apresentar a experiência para a comunidade interna e para a comunidade externa. Nesse momento, a proposta não necessariamente precisa estar resolvida ou pronta. Não é necessário apresentar uma consideração final ou dados finais, mas mostrar um pouco de como os dados foram coletados e como estão sendo analisados até o momento.
E a última etapa do programa é a publicação deste relato de experiência. Como foi fazer essa pesquisa? O que foi coletado? Nessa etapa, traz-se um fechamento para a pesquisa.
Por que é importante investir no papel do educador como pesquisador?
Vou responder com um trecho do livro do Fernando Becker. Esse texto se chama “Ensino e pesquisa, qual a relação?” e o livro é “Ser professor é ser pesquisador”. Nele, Becker fala assim:
“O professor-pesquisador traz uma característica que o diferencia dos demais colegas. Ele transforma sua docência em uma atividade intelectual, cujas observações são favorecidas pela sua atividade de ensino, pela atividade de aprendizagem dos alunos, por sua própria aprendizagem, pela rebeldia de alguns alunos, pela incapacidade de aprendizagem de outros em função da falta de condições cognitivas prévias, de conteúdos e estruturas didáticas apropriadas, ou ainda, da carência de condições materiais. E, finalmente, transforma sua prática em função desta atividade e, eventualmente, publica suas conclusões, exercitando sua capacidade teórica ou reflexiva, e beneficiando, com suas experiências, os colegas professores.”
Relacionar a teoria e a prática o tempo todo, é essa reflexão que a gente quer. É isso que transforma a prática. Publicar para compartilhar. Por isso que é importante o professor ser pesquisador.
A quem se destina cada etapa do programa?
As rodas de conversas são destinadas ao professor que inscreve sua pesquisa no programa. Já o Encontro tem foco nos educadores. E nós entendemos educadores de uma forma mais complexa, pautada na comunidade de aprendizagem. Familiares e responsáveis também são educadores. A equipe administrativa também é educadora. Então é para todos os educadores.
A publicação, que reúne os relatos de experiência e os artigos, é muito consumida por professores, coordenadores, educadores dentro do contexto pedagógico. Mas ela também é para qualquer familiar que se entenda como parte desses processos de ensino de aprendizagem, como influenciador, como incentivador, como parte realmente atuante.
Por que incluir um formato como o Encontro no Educar para além do óbvio?
O Encontro é importante para o educador se identificar como professor-pesquisador e reconhecer aquela pesquisa como algo importante a ser compartilhado. O nome é Educar para além do óbvio, mas, muitas vezes, o que a gente apresenta é muito óbvio na prática, mas não é óbvio na forma de discutir, na reflexão.
E os educadores, os professores principalmente, têm muita dificuldade de terem encontros. A gente promove poucas discussões entre eles, sobre o que eles estão fazendo. Então, o Encontro é esse momento de eles apresentarem o que estão pesquisando nas suas turmas e também para conhecer o que o outro está pesquisando, porque muitas vezes o que o outro está fazendo pode me ajudar e vice-versa, ou pode me inspirar a ter alguma pergunta genuína ou norteadora para o meu trabalho.

No Encontro de 2024, haverá 2 mesas temáticas: a transversal e a disciplinar. Como funcionarão essas dinâmicas?
A mesa transversal vai ser voltada para as coordenações. Vamos falar de avaliação, da importância do letramento informacional e de inclusão na hora do planejamento. Essa mesa também vai incluir algumas temáticas de professores que são transversais, que independem de qual disciplina são. Por exemplo, a relação de status sociais e estados cognitivos do aluno, ou ainda a questão da importância do registro para a avaliação continuada. Já a mesa disciplinar será pautada em Matemática, Língua Portuguesa, Línguas Adicionais e Educação Infantil.
As mesas acontecem concomitantemente e são compostas por apresentações que duram 20 minutos, 15 para a apresentação em si e 5 para discussão do grupo. E quem se inscreve para o Encontro não precisa ficar na mesma mesa, pode escolher que apresentações quer assistir.
Qual é a importância do programa para o Instituto Sidarta e para o Colégio Sidarta?
O programa atua em um dos pilares do Instituto: a formação do professor-protagonista. É uma valorização do trabalho que é feito aqui no Sidarta, uma rede de apoio contínuo. O Educar reúne tudo o que nós acreditamos ser preciso desenvolver na formação de professores. Uma formação que não é necessariamente de alguma disciplina, mas é do pedagógico como um todo. Já para o colégio, ele funciona também como uma forma de dar visibilidade, de valorizar o trabalho que é feito com e pelos profissionais da nossa equipe.
O que se espera do programa para o futuro? Quais são os próximos passos?
Espero que os professores do Colégio, que é a escola de aplicação do Instituto Sidarta, continuem se inscrevendo, todos eles! E, como próximos passos, gostaríamos de tornar um programa para outros espaços, buscar parcerias para ampliá-lo para outras instituições parceiras.