Letramento digital no Sidarta: como a parceria com famílias fortalece o uso consciente da tecnologia

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No Colégio Sidarta, o processo de aprendizagem é construído em diálogo constante com as famílias. Um exemplo disso é o Grupo Letramento Digital, uma iniciativa colaborativa que envolve familiares, coordenação e direção da escola para promover reflexões, encontros e ações em prol do uso consciente e saudável da tecnologia por crianças e adolescentes.

Na entrevista a seguir, conversamos com duas mães que fazem parte do Grupo. Saiba como ele surgiu, quais impactos já gerou e por que esta parceria é fundamental para formar jovens preparados para os desafios do mundo digital.

Conversa com Patricia Toledo, articuladora do
Grupo Letramento Digital

O que é o grupo Letramento Digital e desde quando ele existe?

O grupo foi formado no primeiro trimestre de 2025 quando algumas mães, preocupadas com as consequências desse uso livre e excessivo, conectaram o Sidarta ao Movimento Desconecta com o apoio da coordenação e da diretoria do colégio.

Promovemos a troca de informações por meio de encontros e materiais voltados à conscientização e ao fortalecimento da cultura de cuidado e presença no ambiente online. Nosso principal objetivo é apoiar as famílias na orientação e no acompanhamento do consumo digital saudável e adequado de crianças e adolescentes, incentivando o diálogo aberto, a supervisão responsável e o desenvolvimento do senso crítico essencial para formar cidadãos saudáveis, éticos e empáticos.

Como o grupo atua junto à comunidade escolar?

Temos um grupo de embaixadores do Letramento Digital, que se reúne regularmente para compartilhar conhecimentos e idealizar as ações que serão oferecidas à comunidade escolar. Temos também uma comunicação quase diária com as famílias através do grupo do nosso grupo de WhatsApp, que hoje tem 128 membros e é aberto a qualquer familiar Sidarta interessado em participar. 

Ao longo de 2025, promovemos diversas palestras, um ciclo que foi coroado com um bate-papo presencial com a  delegada Lisandrea Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD). Contamos sempre com a participação da coordenação e da direção da escola. Nos encontros presenciais, já chegamos a um público de 115 pessoas e também oferecemos conversas online para facilitar o acesso de todos. 

Além disso, também realizamos uma pesquisa com as famílias sobre o uso de smartphones e redes sociais e participamos com um espaço físico na Mostra Cultura, ampliando o diálogo com famílias e estudantes.

Como surgiu a ideia de chamar a juíza Vanessa Cavalieri para inaugurar o calendário de ações em 2026?

Entendemos que, para atingir as famílias menos atentas ao debate sobre o tema, seria essencial trazermos para perto alguém com a expertise e a projeção da juíza Vanessa, que exerce um papel crucial na proteção das crianças e jovens Brasil afora. 

Depois da palestra, desenvolvemos um material de apoio, que reuniu anotações feitas por mim e pelas famílias que acompanharam a conversa, que foi compartilhado com toda a comunidade, inclusive famílias que não puderam participar do momento. 

O que você destacaria de mais importante desse encontro com a juíza?

O momento mais marcante foi quando ela trouxe, com base na experiência prática, a mudança no perfil do jovem infrator: não uma questão exclusivamente ligada à vulnerabilidade social, mas também de jovens de classe alta, impactados por fatores como radicalização digital e abandono parental. Isso reforça um alerta importante sobre os riscos do acesso irrestrito às telas, especialmente considerando aspectos do neurodesenvolvimento. A imaturidade do cérebro adolescente aumenta a suscetibilidade a conteúdos nocivos e à influência algorítmica, que é desenhada pelas big techs para viciar e maximizar lucros.

No fim, o grande takeaway foi a responsabilidade ativa das famílias. Não só no monitoramento, mas na mediação consciente do uso de tecnologia, com presença, afeto, diálogo e construção de pensamento crítico — inclusive lembrando que, do ponto de vista jurídico, os pais são corresponsáveis pelos atos dos filhos e a negligência ou “distração” podem ser caracterizados como abandono parental.

Depois deste encontro, o que você gostaria de ver sendo colocado em prática, tanto por cada família em casa, como no espaço da escola?

A expectativa agora é que mais famílias despertem para a complexidade do uso de tecnologias e assumam, de forma consciente, seu papel de mediação e regulação — com equilíbrio entre limites e afeto. A ideia é fortalecer combinados coletivos saudáveis dentro da comunidade.

Quanto às ações do grupo para 2026, o foco é ampliar o letramento digital, especialmente aproximando o tema das crianças e adolescentes, com uma linguagem adequada a cada faixa etária. 

Na sua opinião, qual a importância de existirem coletivos de famílias organizadas e atuantes, como o Letramento Digital? 

Esse tipo de ação coletiva é essencial porque cria uma rede de apoio em meio à sobrecarga das famílias e à complexidade da vida atual. Ela funciona como um facilitador para a troca experiências, amplia a consciência sobre temas importantes para a comunidade escolar e fortalece a formação de crianças mais saudáveis, empáticas e conscientes. Ninguém precisa dar conta disso sozinho.

Na prática, isso também se reflete em casa. No meu caso, ao lidar com a frustração do meu filho por não ter celular, priorizei o diálogo, a educação digital e o estabelecimento de limites alinhados à idade. Me comprometi com ele a mergulhar no tema, estudar e agir junto às demais famílias. Ele se sentiu seguro e ouvido. Com isso, conseguimos reduzir a ansiedade e fortalecer a autonomia emocional dele, investindo mais em experiências offline, vínculos sociais e atividades significativas.

Hoje, apesar de ainda não ter um celular, ele lida com isso de maneira bem mais  tranquila, pois está emocionalmente fortalecido e com fortes vínculos no ambiente presencial, que são muito mais potentes e ricos que no digital.

Que diferença você acredita que essa parceria entre colégio e famílias faça para a educação do seu filho?

O Colégio Sidarta tem um papel importante ao acolher e apoiar iniciativas da comunidade, reconhecendo desafios reais como déficit de atenção, perda cognitiva, comprometimento da saúde física e mental e até a reprodução de discursos de ódio entre alunos — temas diretamente ligados ao uso inadequado das tecnologias.

Ao meu ver, ainda há espaço para avançar em relação ao webcurrículo, ao uso de ferramentas digitais e de IA na escola. O letramento digital exige coerência entre todos os envolvidos e hoje já se conecta com pautas como educação socioemocional, sexualidade, igualdade de gênero e combate ao racismo. É um trabalho coletivo, contínuo e cada vez mais necessário. Juntos somos mais fortes!

Conversa com Bruna Girardi, participante do Grupo Letramento Digital

Bruna, como é sua participação no Grupo Letramento Digital?

A dinâmica do grupo é bem prática e próxima da realidade das famílias. A gente conversa sobre temas muito atuais, como cyberbullying, exposição online, apostas, violência digital e outros riscos que mudam o tempo todo.

Além dessas trocas, o grupo também promove encontros presenciais e online com pessoas importantes e atuantes nessa área para ampliar o debate e trazer informação de qualidade. No fim, o objetivo é esse: fortalecer as famílias, ampliar a conscientização e ajudar crianças e adolescentes a terem uma relação mais saudável, segura e responsável com a tecnologia.

Você é uma mãe muito participativa na comunidade escolar. Como você enxerga essa parceria entre famílias e escola?

Eu vejo essa parceria como algo muito importante. Para mim, foi fundamental na escolha do Sidarta, inclusive. Nossos filhos passam uma parte enorme da vida deles no colégio, então faz todo sentido que família e escola estejam próximas e em diálogo. Acho que uma complementa a outra.

Quando esse canal está aberto, a gente consegue perceber melhor o que eles estão vivendo, trocar olhares e pensar juntos em caminhos. E isso é muito valioso, porque educação não é só conteúdo, nota e desempenho, né? É também formação humana, emocional, social. Então, pra mim, quanto mais essa parceria acontece de forma verdadeira, com escuta e troca, melhor para todo mundo — especialmente para as crianças e os adolescentes.

O que você destacaria dessa experiência de troca com a juíza Vanessa Cavalieri, proporcionada pela parceria entre o Grupo Letramento Digital e a direção do Colégio?

Eu já seguia ela nas redes e também  já tinha ouvido um podcast com ela. Ela é maravilhosa, uma referência aqui no Brasil nessas questões de prevenção ao bullying, cyberbullying e violência nas escolas. Pra mim o recado principal é olhar para seus filhos. Digo olhar no sentido mais amplo, participar da vida deles, realmente se interessar pelo que acontece na escola, com amigos, conversar sempre e adiar ao máximo a entrega de um smartphone. Se já deu, tem que monitorar de perto. 

O que ela trouxe é que essa criança que não é vista, tanto na escola quanto em casa, é quem vai buscar nas redes essa companhia, esse pertencimento e cai nas mãos de pessoas mal intencionadas. Temos que ficar atentos. Não basta ensinar a usar tecnologia; é preciso proteger, supervisionar, criar vínculos, impor limites e perceber sinais de sofrimento antes que eles se agravem.

Depois deste encontro, o que você gostaria de colocar em prática em casa e o que você gostaria de ver no espaço da escola? 

Meu mais novo não tem celular e, se depender de mim, só vai ter com 14 anos – isso se a recomendação não mudar até lá. Usamos os controles parentais nos dispositivos que eles acessam e tem bloqueio de tempo e horário.  A minha filha mais velha já tem, mas também monitoramos tempo e conteúdo, além de sempre conversarmos sobre questões que aparecem online.

Na escola, acho importante esse conteúdo chegar aos alunos. Trazer palestrantes, abrir rodas de conversa sobre temas que permeiam as redes, como a misoginia, o movimento red pill, violência contra animais, a dificuldade de focar, ansiedade e a própria dessensibilização que a exposição a temas sensíveis constantemente provoca neles.

Na sua opinião, como essas parcerias entre Colégio e famílias no Sidarta fazem a diferença na educação das nossas crianças e jovens?

Acho que são vitais para todos. Precisamos nos ajudar sempre. Quando trabalhamos em conjunto, tudo fica um pouco mais fácil. Fico muito feliz e sinto que estou no lugar certo quando a escola apoia nas iniciativas da comunidade. São demandas que sentimos que precisam de uma atenção e o Sidarta faz o possível para dar suporte a todas.

Eu penso que faz muita diferença para as crianças verem pais e mães dentro da escola, participando, se reunindo, conversando. Os alunos percebem o trabalho em conjunto, faz mais sentido para eles verem família e escola olhando pro mesmo objetivo.

Colégio Sidarta