Na Educação Infantil, aprender começa com algo simples, mas transformador: escutar as crianças com atenção genuína. Todos os anos, no Colégio Sidarta, essa escuta se transforma em uma coleção de frases que revelam a forma única como as crianças percebem a realidade. Reunidas, estas frases compõem a publicação Impressões Infantis, um projeto que atravessa quase duas décadas de história da escola.
Inspirada na abordagem pedagógica Reggio Emilia, a iniciativa parte da ideia de que as crianças são investigadoras ativas, capazes de produzir reflexões profundas quando encontram adultos dispostos a observá-las com sensibilidade. Além de um rico registro, a coleta desses pensamentos integra a própria formação dos educadores do Sidarta.
Nesta entrevista, a professora Giovanna Contadini conta como é participar da produção da publicação e o que este processo revela sobre o olhar potente das crianças para o mundo.
Giovanna, com qual faixa etária você trabalha no Colégio Sidarta?
Trabalho com a faixa etária entre 5 e 6 anos. Nossos grupos têm, em média, 15 crianças, o que favorece muito a construção de vínculos e possibilita uma escuta muito mais atenta do que elas dizem, pensam e sentem no cotidiano da escola.
Como funciona a escuta na sala de aula para coletar as frases para o Impressões Infantis?
Praticar essa escuta exige presença e sensibilidade. As crianças se expressam a todo momento. Não só quando fazem uma pergunta diretamente, ou quando a gente as questiona, mas também nas conversas entre elas, nas brincadeiras e nas pequenas observações que fazem sobre o mundo.
Às vezes, as frases surgem de forma espontânea, no meio de uma atividade ou durante uma conversa com o grupo. Em outros momentos, ocorre de eu propor perguntas abertas que as convidam a elaborar ideias, a pensar. É uma escuta muito viva!
Na sua opinião, qual é o maior desafio nessa coleta?
Conseguir escutar sem interferir demais. É comum que a nossa vontade adulta nos leve a perguntar, complementar ou direcionar a conversa.
Porém, o mais rico acontece justamente quando conseguimos observar mais em silêncio. É o que tenho praticado com mais frequência: escutar a conversa das crianças entre si, sem interromper, até mesmo de costas! Isso para que elas consigam continuar conversando com naturalidade.
Desse modo, surgem ideias muito profundas, interpretações muito interessantes do mundo. Nem sempre dá certo. Acontece de elas me verem e a dinâmica da conversa mudar. Mas quando funciona, é muito potente.
O que mais te impressiona nas frases que coleta?
Algo muito marcante é a forma como as crianças conseguem traduzir, com simplicidade, sentimentos e percepções complexas. Elas fazem relações e observações sobre a vida, sobre a amizade e sobre o mundo natural que nos fazem parar e ponderar.
São frases que ficam na memória porque mostram um olhar genuíno e sensível sobre o mundo. E essa escuta estabelece um vínculo muito forte. Às vezes, eu comento: “Lembra que você estava conversando sobre isso com tal criança?”. E elas respondem: “Você estava me ouvindo?”. Isso constrói um lugar de respeito entre o educador e a criança.
Qual a sua abordagem para conseguir ouvir cada criança da sala e captar sua forma particular de se expressar?
De fato, cada criança se expressa de uma maneira diferente. Algumas falam muito, compartilham ideias com facilidade. Outras observam mais, precisam de mais tempo ou de contextos específicos para poder se expressar.
Por isso, é importante a gente diversificar as formas de escuta. Ela pode acontecer numa roda de conversa, numa brincadeira mais tranquila ou até num momento individual. O desafio é criar diferentes oportunidades para que todas as crianças possam se expressar do seu jeito.
A escuta começa com o vínculo, certo? Ao seu ver, o que é mais importante para que esse vínculo surja e, consequentemente, as “impressões” apareçam?
O vínculo é fundamental. Para mim, ele se constrói principalmente a partir da confiança e do respeito pela criança como sujeito. Quando percebe que a sua fala é valorizada e que a pessoa adulta está realmente interessada no que ela pensa e sente, a criança se sente mais segura para compartilhar suas ideias. Isso acontece no dia a dia, nas pequenas interações, no cuidado, no olhar atento e na disponibilidade de escutar.
Qual o seu maior aprendizado neste processo?
É lembrar, constantemente, que as crianças são produtoras de cultura e de pensamento. Elas não estão apenas aprendendo com a gente. Nós aprendemos muito com elas…muito mesmo!
Na sua opinião, como o “Impressões Infantis” contribui com o universo da Educação Infantil no Colégio Sidarta?
O Impressões Infantis amplia nosso olhar sobre o mundo e também sobre a nossa própria prática pedagógica. Participar da publicação nos ajuda a entender melhor o que faz sentido para as crianças e como podemos construir experiências de aprendizagem mais significativas para elas.
Tem também a questão da memória afetiva. As crianças recebem o livro com as frases e com os desenhos muitas vezes feitos por elas mesmas. É tudo muito significativo!